Pelos olhos de um cão - PetBamboo

Pelos olhos de um cão

por Cris Berger do Guia Pet Friendly

A advogada Thays Martinez, perdeu a visão quando tinha 4 anos de idade. Sem saber, ganhou o desafio de buscar melhorar a vida de 6,5 milhões de brasileiros com deficiência visual. Fundadora do Instituto IRIS, encontrou no labrador Boris a possibilidade de uma nova vida e lutou pelos seus direitos. “Descobri que não existem limites para quem acredita em seus sonhos. Divido minha vida em “AB e DB”, antes e depois do Boris”.

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O Instituto

IRIS é a sigla para Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social, uma organização não governamental fundada em 2002 em São Paulo. Ele busca a inclusão de pessoas cegas à sociedade. O meio para isso é através dos cães-guia. “Com o Boris, meu primeiro cão-guia, pude realizar muitos sonhos, desde os mais simples como caminhar sozinha à beira-mar até ir morar só e experimentar outra carreira profissional”, relata Thays.

Infelizmente, há apenas 100 animais capacitados no Brasil. O que a IRIS quer? Tentar atender os 3 mil deficientes que estão na lista de espera. O custo é alto: para treinar um cão é necessário o investimento de R$ 35.000,00. De um lado, temos pessoas que nunca tiveram o benefício de um guia. Do outro, existe a questão da aposentadoria dos cães a cada oito anos. Uma vez que um cego conta com a ajuda de um guia, deixar de tê-la seria algo devastador.

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Em setembro de 2016, através da campanha de crowfunding “Cão-Guia: quanto vale seu olhar”, o IRIS levantou fundos para levar quatro cegos, que tiverem seus cães-guias aposentados, ao Leader Dogs for the Blind, nos Estados Unidos. Durante 26 dias eles ficaram em treinamento com os novos cães.

A trajetória

Vamos voltar a década de 2000, quando Thays tinha 26 anos e era conduzida por Boris, seu primeiro labrador. Algumas lutas aconteceram em busca do direito de entrar em lugares públicos, como ela relata: ”Foram 6 anos de batalha judicial, que valeu muito a pena. A vitória não foi apenas das pessoas com deficiência, mas da cidadania. Hoje são raros os estabelecimentos que criam obstáculos para o livre acesso de um cão guia. Sinto-me feliz por ter contribuído para essa mudança. Somos capazes de transformar a sociedade em que vivemos. Precisamos ter uma postura ativa e não aceitar as injustiças”.

Quando chegou a hora do Boris se aposentar, Thays viveu um novo dilema: ter que dizer adeus ao seu grande amigo e parceiro. Diesel chegou em 2008 e hoje conduz Thays a todos os lugares: academia de ginástica,Tribunal Regional do Trabalho, eventos sociais, shoppings, restaurantes e hotéis.

A vitória

“Conseguimos aprovar duas leis: uma estadual e uma federal, que garantem o livre acesso dos cães-guias a locais públicos e privados de uso coletivo. Atualmente, não só os usuários, mas também os socializadores e os instrutores podem ingressar nos locais. Inclusive, com os cães em fase de treinamento. Isso é fundamental para o preparo deles. Afinal, não são produzidos em laboratórios e precisam ter, desde pequenos, contato com diversos ambientes e situações para que sejam bem sucedidos em seu futuro profissional”, salienta Thays.

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No livro “Minha vida com Boris – A comovente história do cão que mudou a vida de sua dona e do Brasil” Thays conta os anos vividos ao lado do seu fiel companheiro, a conquista por respeito e seu engajamento com a causa social, que a levou criar o IRIS com mais alguns amigos.

2 Comentários

  1. Silvia Tessuto disse:

    Sou testemunha desse valoroso trabalho feito pelo Instituto Iris, através de minha amiga Liana Conrado, cujo cão-guia Sirius foi a dádiva maior que ela recebeu em toda a sua vida. Trabalhamos juntas por mais de 15 anos e durante o período de trabalho, era eu quem a conduzia para o ponto de ônibus, quase todos os dias. Quando o Sirius chegou e fui vê-lo, meus olhos ficaram marejados. Não conseguia acreditar no que via: um belo cão, dócil, sereno e extremamente belo. Foi seu fiel servidor por quase 11 anos! Hoje está aposentado e Liana está de posse de um outro belo exemplar de labrador, o Indy. Ela está se adaptando ao novo cão, que por ser jovem e vigoroso está fazendo com que ela necessite ter um maior cuidado e paciência, pois ela estava, evidentemente acostumada ao bondoso e atento Sirius, que havia se tornado seu membro físico. Pude constatar que o cão-guia cria uma verdadeira simbiose com seu dono, e é extremamente difícil separá-lo dele. Certa vez tive de ficar com o Sirius por alguns instantes, enquanto Liana se dirigia para um local reservado. Sirius ficou totalmente inquieto e não desviava o olhar nem o seu corpo da direção onde Liana se encontrava. É uma ligação que pessoas custam a acreditar que exista, sem ter passado pela experiência. Eu mesma aprendi muito com essa relação. O Brasil ainda tem muito a aprender. A crença geral é que um cão-guia é mais ou menos um bicho de estimação como qualquer outro. É muito mais do que se possa imaginar. O cão-guia torna-se os olhos de seu dono, protegendo-o dos perigos e dos obstáculos. Um cão treinado especialmente para oferecer ao cego a proteção e carinho que de outro modo ele jamais poderia alcançar. Faço votos e torço para que o Instituto Iris continue a proporcionar essa felicidade que pude testemunhar.

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